25. Se o Picapau...
A casa dos meus tios
A casa dos meus tios
24. Se o Picapau tivesse avisado a polícia…
Érica seguiu com o trio pelos subterrâneos do terreno até a adega de pedra sob o casarão. Um Henrique sem bengala fez questão de puxar a mala de rodinhas pelo caminho, incomodando o casal de primos, a mulher estranhava a presença dele e a si mesmo, que mais do detestava ruídos repetitivos, até então evitava fazer força.
E a entrada para a adega era um corredor seco pavimentado de tijolos e pedras antigas que terminava num portão sólido de metal polido com três fechaduras. Ana enfiou uma chave na fechadura do meio e na última e Pedro girou as duas chaves ao mesmo tempo. Um clic abafado foi ouvido e Henrique fez questão de empurrar a porta, ajudado por Pedro e pela mão esquerda de Ana, a mão direita ainda segurava a garrafa de plástico com o chá.
— Não olhe em volta ou feche os olhos e siga a minha voz, Henrique disse, mas ele mesmo queria poder ficar ali e examinar as prateleiras de garrafa deitadas. Certamente havia algo de valor ali. E algo antigo e esquecido.
Pedro acenou para uma suposta câmera escondida naquela primeira sala e enquanto ziguezagueavam pela adega, podiam ouvir um ruído contínuo e pesado reverberando do teto. Era o elevador de carga que o senhor Dario e madame Georgia costumavam usar. Era estreito, apertado e, nem Henrique nem Érica sabiam, blindado.
O elevador não parou no vestíbulo atrás da cozinha, mas subiu três andares até o refeitório transformado em ateliê de cálices da Santa Ceia. O projeto do tio Júlio e da tia Júlia tinha sido aceito com alegria pelos outros tios. Até a tia Esther havia encomendado um de cada.
Da sala de mesas compridas tomadas por todo tipo e forma de graal em diversos estágios de acabamento, a quadra seguiu em direção ao jardim de inverno, por sua vez transformado em salão para a cerimônia da bebida forte.
— O tio e a tia Júlia tinham litros de chá na casa deles, você viu.
— Metade ele desperdiçou com o Lucas, até aceitar que bebedores de sangue não conseguem manter nem processar DMT no estômago. Não sei quem ficou mais frustrado, o tio Júlio ou o Lucas, que tinha a promessa e a ilusão de que recuperaria o tempo perdido.
— Tempo não falta pra espécie deles.
— Esses dois estão falando de um vampiro que um tio deles encontrou e trouxe pra cá.
— Eu entendi, Henrique. Até senti o cheiro. Parece que trazer criaturas para cá parece uma prática comum.
— Ei, estou tão espantado quanto você. Se eu soubesse que você era da turma desse povo…
— Se o Picapau tivesse avisado a polícia, Henrique…
Ali, disse Ana apontando o mindinho como a vó Ângela costumava fazer quando queria dizer que não tinha vontade de prolongar nenhum assunto nem participar de nada e seria melhor estar morta. Às vezes a vó Ângela parecia ter a idade do Pedro.
De uma porta de vidro entreaberta ouviam vozes muito animadas.
Pedro retomou o assunto:
— O resto do estoque o tio Escobar achou fermentado demais. Até cozinhar de novo e ver o que dava para salvar, o tio Carlinhos decidiu contatar o fornecedor dele. E então o tio…
A porta de vidro foi escancarada e um homem pelado, só de botinas, deu cambaleou de costas dois passos e voltou para dentro.
Aquele é o tio Júlio, disse Pedro.
Uma figura, alguém numa fantasia de gorila, apareceu no lugar do tio pelado e estendeu a mão para alcançar a maçaneta da porta de vidro, então se voltou para os quarteto e acenou.
— E essa é a tia Ludimila.
— Vocês dois têm certeza de que os tios de vocês precisam mesmo dessa garrafa?
Subitamente, tia Ludmila foi empurrada para fora e três tios se engalfinharam na porta para conferir a aparência da sobrinha biológica do tio Carlinhos. Um homem sem camisa, com físico de nadador, cicatrizes por todo o tronco e calças Jodhpur emprestadas de outro tio. “O sem camisa é o tio Escobar.” Uma criatura barbuda e balofa com monóculo e vestida de gaúcho, com bombachas, tentando desenroscar uma boleadeira do pescoço de uma mulher que parecia uma freira, vestida com um comprido hábito branco que quase escondia os coturnos enlameados e era dois números maior. “A que quase perdeu o pescoço é a nossa tia Esther. Amén, tia Esther! O maluco da fronteira é o tio Ernesto.”
— Zeca Urubu da Shopee, Leôncio da fronteira e Minnie Ranheta sem a napa – disse Érica, fazendo finalmente Pedro e Ana rirem ao mesmo tempo.
É com essa patota que o meu tio passa os dias quando volta ao país.





