26. A cerimônia
A casa dos meus tios, terceira temporada, última semana

26. A cerimônia
— Tá, essa que vocês chamam de tia Ludmila é a doida da fantasia de gorila.
— Sim. A especialidade dela é cavalaria.
— E a que acabou de tirar o salopete manchado é irmã de verdade dela?
— Uma raridade no nosso ramo, a tia Isabel.
Érica soltou um longo suspiro e o tio Carlinhos acenou para o tio Júlio e a tia Júlia que só tinham mais cinco minutos para começar a cerimônia.
— Esses dois aí moram nos fundos da propriedade, o senhor disse que o tio Júlio trouxe um vampiro pra cá, que não está mais aqui, e que a… tia Júlia?, ela é especialista em combate corpo a corpo?
— Isso. E o tio Júlio entende de informação, mas sem tecnologia, dados, a área dele faz fronteira com a minha. Mas o tio Júlio é de outra geração, de outros conflitos. A tia Júlia era enfermeira de campanha no começo. A mesma lâmina que amputa… e tal…
A sobrinha queria perguntar mais e o tio Carlinhos a interrompeu:
— Aquela que você disse que parece freira, tia Ester, não pertence a nenhuma ordem. A gente conversa muito sobre guerra justa. Ela mesma já foi amazona e já passou pela artilharia, e hoje é a nossa suplente de estrategista. A loirona corpuda que anda igual um trator, com elã de madame, vó Ângela, ela foi mesmo madame. E cafetina, prostituta, negociante, mercenária e é a nossa estrategista principal.
— E o “primo” Pedro vai ficar igual ela quando crescer?
— A esperança do tio Escobar é fazer do Pedrinho um homme à femmes, mas a especialidade dele hoje é espionagem e algo de estratégia. Já a nossa Aninha, você viu, maneja o arco, a primeira arqueira em muito tempo, ela estuda arqueologia, mas tem potencial, como o Pedrinho, para estratégia.
À frente deles haviam unido duas longas mesas onde todos os tios sentariam à volta. À esquerda, num aparador, o homem que tio Carlinhos havia apresentado como tio Adalberto arrumava os copos para a bebida forte. Diante dele havia uma travessa com frutas picadas, o tira-gosto para quem não suportava o gosto do chá, e a garrafa que Érica havia trazido a pedido do tio. Adalberto parecia o mais normal, apesar de estar de batom e sombra pesada. Se lembrava direito, ele havia trocado a cavalaria pelo combate aéreo.
Nas ponta esquerda das duas mesas unidas havia um cadeirante, que talvez se chamasse Heitor. O tio Carlinhos havia tido com toda a seriedade que Heitor tinha experiência com tanques e armas de guerra antiga, alpinismo e principalmente cercos e pilhagem. A cadeirante na outra ponta seria Ísis. De tia Ísis, o tio disse apenas que havia salteadora e guerreira. E tio vestido de gaúcho da fronteira, Ernesto, acrescentou:
— Tia Ísis é a primeira moradora da casa. Está aqui há mais tempo que todos nós.
Não foi preciso apresentar nem o tio Ernesto nem o tio Escobar, o homem sem camisa.
Tio Ernesto se limitou a enfileirar títulos e patentes e encerrou dizendo que bom mesmo foi trocar a vida de armeiro pela de correspondente de guerra. E tio Escobar, que Érica já conhecia, cochichou alto o suficiente para o tio Ernesto ouvir, que além de modesto, ele preferia falar dos tempos de armeiro e de correspondente de guerra a contar dos tempos em que dirigia ambulância.
Pelo tio Carlinhos, Érica ficara sabendo que além de professor de esgrima, Escobar havia sido da guarda costeira e tinha experiência como homem-rã. A extensão de marcas e cicatrizes pelo tronco era resultado não só de duelos, mas de fugas pelas janelas da casa de maridos revoltados.
Ísis, Heitor, Ernesto, havia um padrão. E Escobar era o único que não parecia se encaixar. Nem o tio Carlinhos. Artilharia, cavalaria, infantaria. Combate aéreo, pilhagem, espionagem.
— Ciberataques, drones, warfare tecnológico, é só isso, tio?
— E um pouco de diplomacia, ninguém é de ferro, menina Érica. Agora você e o seu amigo Henrique vão nos dar licença. Pedrinho e Aninha vão participar como cuidadores, faz anos que alguns de nós não tomam nenhuma substância dessas. E mesmo gente experiente como o tio Júlio acaba fazendo muita limpeza. Você e o Henrique podem ficar na casa, só não vão muito longe. Ou podem subir a colina até o cemitério, o Henrique conhece o caminho, lá é um lugar seguro.
E sem mais cerimônia, tio Carlinhos colocou a sobrinha para fora do jardim de inverno.
A seguir
27. Pausa para Érica e Henrique
Entre permanecer na casa, trancados para fora da cerimônia e subirem a colina do cemitério, Henrique sugeriu uma parada estratégica na cozinha para um lanchinho. A dupla voltou pelo elevador e desta vez pararam atrás da despensa onde madame Joi estocou tortas de palmito e jarros de magr…




