24 Reunião
A casa dos meus tios.

A cada dos meus tios
24 Reunião
Érica desceu do Byd do Uber e conferiu se trazia mesmo a garrafa pet e não esquecia as chaves. Era o endereço. Uma esquina onde não havia nada, só uma árvore num descampado. Mas agora ela enxergava uma mureta ao redor do descampado. Na verdade, enxergava também o que parecia uma grade. E quando se afastou do carro, compreendeu que era uma ilusão de óptica, só podia ser. Havia mesmo um casarão ali.
Dois adolescentes acenaram para ela do jardim. Ela acenou de volta e por um segundo o casal de adolescentes pareceu desconcertado, até assustado.
Então o garoto de adiantou até o portão. A garota ficou exatamente onde estava. Parecia esconder algo atrás de si. Uma viola, um cabide de madeira escura, talvez uma besta.
— Você mora aqui?
— Às vezes.
Era encorpado, mas o corte de cabelo não ajudava. E a resposta combinava com o olhar sonso. Mas parecia bem vestido demais para um adolescente. O cabelo não ajudava.
— Procura alguém?
— Meu tio pediu para eu vir até aqui. Ele disse que ia mostrar a casa. E pediu para eu trazer uma encomenda.
O garoto se virou para a adolescente ainda na mesma posição e acenou. E quase gritou: é ela sim.
A adolescente tirou do bolso um chaveiro e pressionou nele o botão para abrir o portão. Mas não foi o portão onde estava o garoto que se abriu, mas um portão gradeado de garagem mais à frente que Érica ainda não havia visto. Os olhos sonsos do adolescente se arregalaram e sorriram como se dissesse: “pode entrar por lá, a burra errou o controle remoto”.
Érica entrou por uma abertura estreita e teve que passar de lado a mala de rodinhas. O portão se fechou assim que ela entrou.
— Sou o Pedro. Seja bem-vinda, Érica. O tio Carlinhos fala muito de você.
— É? O maldito nunca falou de vocês. De nenhum de vocês. Nem sabia que tinha gente mais jovem morando às vezes aqui.
— Você vai adorar a minha prima.
De fato, a garota escondia uma besta atrás de si. E Érica não tinha certeza se era uma aldrava, não, era uma aljava, de flechas na cintura da adolescente. Cumprimentaram-se em silêncio e o silêncio dizia “você trouxe?” da parte da garota e um “e vocês estão ficando?”, de Érica.
A mulher puxou o zíper da bolsa menor da mala. Hesitou entre tirar o pacote ou apenas expô-lo à visão dos adolescentes. Dentro de quatro sacolas de supermercado havia a garrafa PET com a bebida forte que o tio Carlinhos havia pedido para Érica buscar depois da represa, na casa de dois peruanos.
Ana estendeu as mãos para pegar a garrafa e Érica decidiu que aquela adolescente podia ficar com tudo. Uma rápida troca de sobrancelhas levantadas fez Pedro indicar com a cabeça a direção, e Ana virou à a esquerda e seguiu pelas lajotas de pedra sobre um gramado que se movia sem que houvesse vento. Pedro se ofereceu para levar a mala e Érica seguiu atrás de Ana.
— Vai ficar com a gente? Muito tempo?
A voz da adolescente era grave, sem luz, mas parecia esconder um calor que animava Érica, pelo calor escondido e pelo esforço da adolescente em escondê-lo.
Adiante deles havia a grama e pareciam se afastar do caminho que com certeza levaria à entrada da casa.
— Meu tio disse que pelo menos mostraria a casa para mim.
— Claro que ele disse. O que você acha, Pedro?
— É, Pedro, tá curtindo a paisagem?
— Bom, a casa está meio vazia, não?
— O que a besta do meu primo está querendo dizer é que… estamos sem os… estamos desfalcados esta semana da equipe que cuida da casa. Mas tem água quente, comida, roupa de cama.
Érica se virou para trás, talvez para conferir se Pedro de fato apreciava a paisagem, e o garoto tinha a mão livre na altura da orelha e girava o dedo indicador.
— Vocês são primos mesmo, Ana? De sangue?
Ana respondeu com outra pergunta: como é o tio Carlinhos lá fora? Vocês convivem muito?
Érica percebeu que o gramado parecia se agitar na direção das pedras por onde os três cruzavam. E que a prima Ana, com a besta na na mão direita e a garrafa de ayahuasca na esquerda, andava com muito cuidado, tentando pisar no centro das pedras, sem olhar para baixo.
E Pedro procurava correspondências na figura do tio Carlinhos e na… no derrière à sua frente. Com certeza deveriam se parecer em algo. A verdade é que não tinha reparado o suficiente no tio Carlinhos por trás. Era melhor ter ido na frente. Mas antes que Pedro conseguisse tirar a zarabatana do bolso da calça, estava quase em cima de Érica, que segurava Ana, que apoiava a garrafa PET e a besta contra o gramado para não ser mordida pela grama.
— Perdão, tropecei em você, Ana.
Ana soltou um grunhido.
— Pode pegar a gente, Pedro? A Ana não quer ser beijada pelo gramado esquisito de vocês.
Pedro ajudou Érica a ficar de joelhos sobre a pedra e Érica conseguiu puxar Ana de volta para a linha de pedras. Ana soltou a mão da garrafa PET e espalmou a pedra abaixo e Érica a soltou para que a garota soltasse a besta e terminasse de se equilibrar sobre a pedra.
Quando os três voltaram a ficar de pé sobre as pedras no meio do jardim, Érica tentava não rir e Ana não parecia irritada. Então Pedro guardou a zarabatana no bolso.
— Ela é boa, não é boa, Pedro?
— Pode concordar com a sua prima, Pedro. Vocês vão tentar mais alguma graça?
— O que foi que entregou a gente?
— Sua prima tem uma besta e decide ir na frente. O que você faria no meu lugar, Pedro? Também não tentaria derrubar a Ana e ver como vocês reagiriam a esse gramado suspeito? Isso é o que eu penso que é? É carnívoro?
— Sim.
— Meu tio disse a vocês qual é o meu trabalho?
O trio seguia pelas pedras, que se distanciavam do caminho para a casa e se aproximavam do bosque à esquerda que Érica pensava que terminava na cerca ou muro do terreno. De algum lugar entre as árvores, veio uma voz conhecida, mas não era do tio Carlos.
— Vocês falam alto demais. Acho que conheço a visita.
Ana apontou para a mulher que a trilha de pedras parecia terminar diante de duas árvores adiante de uma cerca viva. Então, Érica viu à esquerda da primeira árvore uma fresta pela cerca viva. Ana correu e entrou pela fresta e Pedro aguardou a mulher tomar coragem e seguir Ana.
Depois da fresta havia um caminho estreito até um grotão aberto ao redor de uma estrutura circular de cimento. Não era uma capela, lembrava um banheiro público de praça. E sentado na beirada que servia de banco, uma beirada que parecia contornar toda a estrutura, Henrique folheava o jornal.
— Então a senhora é a sobrinha querida do senhor Carlos. Bom te ver aqui.
Pedro explicou a Ana que estrutura não era um banheiro, mas um duto, um imenso cano ladrão que servia para dar vazão à água das caixas d’água, dos encanamentos e das calhas. Também servia, quando alguém da casa interrompia o fluxo e abria vazão para o encanamento subterrâneo, de entrada secreta para o túnel subterrâneo que conduzia ao segundo porão da casa.
— No momento a casa está nervosa, por isso não fomos direto pelo jardim normal — disse Pedro.
Henrique piscou para Érica querendo dizer que depois ela compreenderia. Só então a mulher se aproximou dele e trocaram um beijo discreto do qual a pele de Henrique não se ressentiu. Mas Érica deu dois passos para trás.
— Há vampiros por aqui?
— Ela é boa mesmo — exclamou Ana. A desconfiança inicial não existia mais.
— Três, dona Érica. Mas já foram embora — disse Henrique antes de farejar o colarinho e as mangas à procura de qualquer sinal que pudesse indicar gente que em princípio não deveria suar nem secretar gordura ou qualquer fluido ou miasma. E não se conteve: “É como coisa velha, cemitério, armário de senhorinha?
— Uma mistura das três e um pouco de falta de religião.




