Quem sabe é uma newsletter
Não desisto de tentar fazer uma. Mas aqui é requentado das notas de abril de 2025.
Reparei que a plataforma zoa a capacidade do navegador. Daí era aceitar que as notas se perdessem como lágrimas do Roy Batty ou tentar registrá-las como postagem.
Esta experiência é de abril de 2025. Meus quatro navegadores travam aí.
Uma opção era agrupar as notas em temas, mas talvez agrupar pelo mês dê um retrato mais fiel daquilo que pedia passagem pela mente na época.
“Broke today is worken”, sempre tem um picareta vendendo os pedaços.
Dos FOMOs do inferno
Quando eu era criança só os catequistas, os amigos novidadeiros dos nossos pais (amigos que insistiam em voltar do Chile, do Canadá, do Caltech, de Osaka e nos “contar como é”), as matérias assustadoras do Fantástico e, ocasionalmente, o Afanásio Jazadji tinham permissão para nos assustar, crianças de várias idades, com os FOMOs do inferno e a beatitude dos insiders dos JOMOs do que quer que fosse (do confrei às pirâmides financeiras, passando pelo telejogo e pela Jamanta Comando Eletrônico da Estrela).
Os FOMOs eram mais angustiantes: saber que o seu nome podia não estar na lista de quem ia entrar no céu ou que em menos de duas décadas o mundo ia acabar, talvez antes, ou que a AIDS etc.
Hoje se denuncia nas redes o excesso de gente que age e grita e baba e nos assusta, crianças de mais idade, que tomou o lugar dos catequistas que no meu tempo falavam do fogo do inferno e da dor de queimar lá sem papai e mamãe e da vergonha de nossos pais passarem a eternidade tendo que explicar por que você, filho deles, não ia passar a eternidade junto deles.
Ao mesmo tempo, também se denuncia um mundo mais secular.
Antes fosse; o materialismo, assim parecia, dos amigos dos nossos pais era pelo menos interessantes. (Ir dormir pensando que um dia tudo seria ligado por montanhas-russas de trens balas levitando via supercondutores é melhor que ficar encanado com ser “a sua melhor versão” tendo que usar o suplemento X ou evitar a auto-ajuda de Z.)
“Thus conscience does make Hamlets of us all.”
O dispêndio de energia do cérebro alimenta a impressão de que você participou ativamente da montagem da pizza, sem ter movido um músculo nem para abrir e esticar a massa, só ficou assistindo ao pizzaiolo.
Quanto disso não convida a mente a tratar tudo como serviço de restaurante?
Assim como a pessoa se culpa pela escolha errada na hora do pedido, ela começa a pensar que os relacionamentos também não deram certo por algo que ela fez ou deixou de fazer.
Serviço implica avaliações e resenhas mal-educadas num arremedo de língua portuguesa. E cria o bumerangue moral: se a culpa não foi do restaurante, só pode ter sido minha. E toda vez que a pessoa não achar um culpado (Deus, o FMI, a PUC do Rio, o presidente, a tia), ela acredita que a culpa só pode ser dela.
Gênero deveria ser discutido pelo que é: policiamento e controle
Policiamento é tara econômica.
Por isso economistas observam que um objetivo das discussões de gênero é forçar o fim dos banheiros fora de casa, sejam públicos, sejam de restaurante.
É enfezar a população para deixá-la enfezada.
E miraculosamente (ou seja, os tais efeitos “de segunda ordem”) a economia irá pra frente.
Já controle é coisa de tarados, fetiche sexual, perversão
Quem é do interior denuncia que o governo quer virar um imenso quartel de tiro de guerra, só que agora para todos os sexos e gêneros.
Até sumirem de vez com os banheiros fora de casa, teremos a realidade das forças armadas brasileiras no dia do alistamento: “Mostra o pau, o governo quer ver o seu pau!”
Entreguismo
O Instagram me sugeriu publicidade de uma coach alemã. Voz suave, tranquila, quase entreguei sem temor a Polônia pra ela. Tão diferente da voz irritante do similar nacional.
Falando nisso, na Austrália o Google Translate já atualizou “RFK” como “Aktion T4”.
Aquela voz
A impostação do entrevistador passa a impressão de que em algum momento vão falar de cigarros Vila Rica, creme Bozanno ou o Nelson terá que responder sobre o Boco Moco.
A monstruosa voz dos jovens
“Se o jovem não se sente à vontade para falar disso com a pessoa certa, ele vai se sentir à vontade para falar com a pessoa errada. O tema continua lá. A gente entende que é o básico da terapia, você precisa falar do monstro para lidar com ele.” — NdC
Ainda sigo na campanha pelo live action do Pica-Pau para ver Charlotte Gainsbourg de Meany Ranheta (Mrs. Meany).
Perícia no auto-elogio
A noção de que só contorcionistas podem se auto-elogiar sem causar controvérsia ou polêmica.
Aproveitemos a violência gratuita porque logo mais era será paga e tarifada.
A vontade de incluir um raul-seixista “Se quiser voar.” ao fim de cada proposta imbecil das autoridades, dos políticos e, estudos apontam, dos nossos especialistas.
Identidade?
Sou de outra geração. Qual? Não importa, qualquer outra. Não policio e dificilmente quero saber o que atocham as gentes onde não brilha o sol.
Daí o meu espanto com gente da minha idade, e outros com alguns anos acima ou abaixo, insistindo em classificar tudo e qualquer coisa em “raiz” ou “Nutella” e deixando claro que preferem o que é “raiz”, diferença que só faz sentido se a pessoa for sentar em cima.
Além disso, até o finado Mason Verger sabia do valor do chocolate, ainda que suas vítimas preferissem ficar de pé diante do bom doutor.
“Karate, Kung Fu, Ninjitsu - they are but shadows. Sinanju is the Sun.” — Chiun
Parece desculpa do Ziraldo, mas nunca ouvi uma musica inteira do Radiohead
Tentei ouvir hoje a primeira faixa do álbum Ok Computer. Continuo sem ter ouvido uma música inteira do Radiohead.
Há quem confere a carteira quando ouve a palavra “existencial”
Entendo, porque penso já em inexistencial e desistencial
E se algo não muda quando trocamos existencial pelos outros termos ou se algo fica ainda mais doido quando trocamos, difícil é evitar a sensação de engodo, 171 e cambalacho.
Se o rebanho e a Igreja tivessem optado pelo acordeão em vez do violão, teríamos bandas de klezmer cristão.
E talvez o ratatá não bandearia tantos curiosos nem o cristão se fantasiaria de ratateiro para conter a curiosidade de outros cristãos.
“The West won the world not by the superiority of its ideas or values or religion but rather by its superiority in applying organized violence. Westerners often forget this fact, non-Westerners never do.”
Vi na outra rede. O fato de sair na Psychology Today confere todo um sabor
De um lado, parece que voltamos aos anos 90 (e à a eleição de hipóteses espúrias a serem testadas pela ciência do momento).
De outro, parece que as pessoas não querem sair de lá (vamos nos aferrar a hipóteses espúrias até surgir alguma ciência que as comprove).
Ah, sim, o link se perdeu. Era algo do tipo “Science Stopped Believing in Porn Addiction. You Should, Too”
Quando eu era criança, aprendi que só existia vício se houvesse algum princípio ativo. Era, inclusive, naquele momento de campanhas contra as drogas, todo um debate entre álcool, cânhamo, coca e opioides e o peso da dependência psicológica do cânhamo em relação à dependência química, e abstinências diversas, das outras substâncias.
Mas lá pelos anos 90 a noção de vício mudou, talvez para acomodar as obsessões e o comportamento obsessivo com que se pintavam os americanos.
Ainda assim, penso que quem conviveu com alcoólatras ou com dependentes químicos não consegue levar a sério a expressão “vício em pornografia”.
Nunca neguei que sou católico e, em todos esses anos na internet, nunca vi nenhum problema com a pornografia. Ao contrário, vi sites, serviços e profissionais da internet criando problemas para a pornografia. Birra mesmo. Picuinha, mesquinhez, moralismo. De graça.
Pior, e algo que me fez pensar em abandonar redes e espaços digitais, pessoas muito ocupadas com criticar, denegrir e perseguir a pornografia. A ponto de, no caso de gente religiosa, me fazer pensar o pior da pessoa. Que religião é essa que deixa a pessoa encanada com o que nem está no caminho dela? E, de baciada, gente que não consegue nem dizer o que é pornografia, algo que estudei na graduação e que foi objeto do meu trabalho de conclusão de curso. Nem por isso rompi amizades nem saio por aí dando carteirada. Mesmo na Quaresma.
Ainda falta algo
Recomendações, talvez?
Romance em papel que você pode abrir em qualquer página e ler em qualquer ordem: Quero dançar até as vacas voltarem do pasto.
Uma semana na vida de uma turminha que não foge do incesto, do abuso nem de velhinhos tarados e pais negligentes: Daily Strip.
Mais de 400 páginas de gente ruim fazendo coisas boas: 7-5.
Segundo Lacan, o criador da lacanagem, Satã é Um dos nomes do pai. Já dizia o vulgo, Bernanos a gente pimba.







