Pornógrafo?
(E quem é que realmente pensa... naquilo. Rascunho de ensaio de muitos anos atrás, e que nunca foi para a frente.)
Venho da editoração, depois de ter zanzado por dois anos física, e meu TCC foi sobre a edição de livros eróticos no Brasil. Trazia uma definição operacional de livro erótico, erotismo e pornografia (que não utilizo nesta postagem). E trazia um recorte, quase uma polaroide ou uma radiografia, do que havia disponível na época (em livrarias, alfarrábios e bibliotecas) e das estratégias de publicação desses títulos.
(Estratégia de publicação soa e também é um jargão. Perdão. Em língua de gente: como editoras escolhem, justificam e publicam determinada obra. Vendem como cursiosidade médica ou jornalística? Como a versão “diet” ou mutilada do Psychopathia Sexualis? Enfiam numa coleção, como a dos títulos “libertinos” dos anos 90? Denunciam o que eles mesmos estão publicando? Como o último livro do Alain Robbe Grillet, publicado com um adesivo ao mesmo tempo censurando e promovendo a obscenidade do que ia naquele romance? Faz como a editora que botou uma cinta para “proteger” o público ou a capa do “O Amor é fodido” do MEC, que nem é livro erótico? Usa a abordagem da Ediouro de publicar lá nos anos 1990 relatos eróticos como terapia ou auto-ajuda para casais? Tudo isso são escolhas dentro de um plano comercial para a publicação e sobrevida da obra, daí o palavrão “estratégias de publicação”.)
A descoberta mais interessante (para mim) era que várias datas de primeira publicação de determinada obra licenciosa podia ser recuada em pelo menos dez anos. Exemplo: os exemplares mais conhecidos do que se tinha como primeira edição nacional de Os 120 Dias de Sodoma, do marquês de Sade, tinha saído 7 ou 12 depois da primeira edição de fato, e bem menos conhecida.
Menos interessante, mas espantoso no levantamento de bibliografia e na pesquisa, é reconhecer que várias das estratégias editoriais listas por autores (nem todos acadêmicos) como Alexandrian e Lynn Hunt, seguiram mesmo existindo no mercado editorial brasileiro.
Talvez nada disso tenha relação com o rascunho abaixo. Não serve nem de carteirada. Mas queria explicar o tom do texto, os recortes, a abordagem. E de repente explicar a quantidade de postagens a respeito dos mesmos temas (aqui e, antes, no Medium) em vez de um ensaio acabado e unificado.
(Pode ser também vício desenvolvido pela convivência com estudantes de física e de matemática e alguns físicos e matemáticos, duas categorias que costumam publicar artigos em vez de livros, o que deixa o público menos especializado boiando quando o tema pede um contexto que não está dado, como aquilo que a pessoa pensa que é pornografia, não é imediato, se a pessoa não foi buscar a conversa a respeito.)
(Parte do que vai abaixo, como o Tumblr, ficou desatualizado. Inclusive a menção à rua Araújo, que foi revitalizada ou gentrificada, esses polissílabos que significam uma higienização comercial: mais segurança, menos marginais e muita fila para paulistanos.)
Pornógrafo?
Originalmente, assim dizem os pedantes, pornografia queria dizer “escritos sobre prostitutas”. Pornógrafos eram escritores ou poetas pagos para anunciar as profissionais, em verso e prosa. Infelizmente, os orelhões caíram em extinção.
A menos que se considerem roteiristas, assessores de políticos e, ocasionalmente, redatores publicitários ou outros profissionais ocupados com o não tão ocasional oba-oba mecânico de certas figuras públicas e personagens menos fictícios, não há mais pornógrafos há alguns milênios.
Também não há mais prostitutas, pelo menos como antigamente. A atividade não é reconhecida. Ou seja, não há taxação específica, a prostituição só paga tributo nas obras de ficção, sendo presente desde a Bíblia. [Entra aqui o status da prostituição e das prostitutas nos países socialistas, incluindo a antiga União Soviética. Tem no até YouTube.]
Sem objeto nem atores, a palavra passa a girar em falso. Pornografia torna-se como a noção de pólis neste mundo em que nem o Vaticano nem Cingapura cabem direito na antiga e helena noção de pólis.
Pornografia ganha os mais diversos significados, portanto.
Um deles é a citação atribuída ao surrealista André Breton: “a pornografia é o erotismo dos outros”, que de início já nos ajuda a inferir como o termo é utilizado (como desqualificativo) e adianta o trabalho de buscar uma definição ou redefinição: a pornografia tem relação com o erótico.
A série infinda de significados e definições para a pornografia abre um rol de gente suspeita, gente que perdeu tempo com o assunto, ao ponto de qualquer discussão soar como bibliografia de pedante, um eterno name-dropping, como o leitor verá a seguir.
Os surrealistas, além de incensarem e reeditarem o marquês de Sade, foram grandes editores de pornografia das mais diversas, inclusive criaram o quadrinho erótico ou pornográfico moderno. Não as Tijuanas Bibles dos americanos ou, orgulho nacional, os catecismos do Carlos Zéfiro, mas aquela ideia europeia de histórias em quadrinhos, agora em versão erótica.
Paulo Francis, que não era leitor de quadrinhos, mas leu Sade, inspiração e herói reabilitado pelos surrealistas, e conhecia parte do cânone pornográfico literário, deu uma definição boa de erótico: “aquilo que nos erotiza”, que nos excita sexualmente. (Daí se pode enxergar arestas, conexões e abas ocultas com os objetos da pornografia, no sentido original ou nos vários sentidos atuais.)
Não encontrei o autor original do dito fransciano, mas ajuda a retirar o véu, talvez burguês, talvez indevidamente burguês, de cima do conceito de erótico. Se esse erótico será sublimado ou não, se apontará ao vértice religioso que George Bataille, outro pornógrafo e companheiro dos surrealistas, esmiuçou, não importa. Seja qual for o fim erótico, seu início é sempre o potencial de enlevo sexual, o potencial de excitação sexual.
Talvez o leitor não compreenda isso ainda. Duvido, mas ficaria feio eu desmentir justamente o leitor. Penso que o leitor sabe que se a idéia de erótico é clara, precisa, também sabe que a pornografia sambará em volta da idéia de erótico, às vezes com os dois conceitos sendo tomados por opostos, até por pessoas inteligentes.
“I know it when I see it”, disse em 1964 o juiz Porter Stewart. O “eu” do “eu sei quando vejo” é importante demais, já que várias pessoas podem olhar para a mesma coisa e nem todas enxergarão o pornográfico.
Companheiro, talvez não de geração, mas de uma encarnação, e de profissão de Francis, o jornalista Sérgio Augusto não foi o primeiro a definir a literatura erótica ou pornográfica nesses termos, de “aqueles livros que lemos como uma mão só”, essa noção é mais bem mais antiga, mas a frase que ele algumas vezes soltou nos jornais ratifica do que erótico, e por extensão, pornográfico, tratam.
Se pornógrafos e prostitutas não existem mais, e não existem mais porque a política do Estado é não reconhecer o comércio do sexo, e também porque não existe mais certa realidade em que essas palavras surgiram, outras tentativas de definir a pornografia passam pelo comércio e pela política. Obviamente, descer a rua Augusta até final ou andar pela rua Araújo e por outras partes do centro de São Paulo comprova que a prostituição segue existindo. A caminho da USP também, se a pessoa não for de metrô.
Comercialmente, a pornografia será um tipo ideal de produto, cuja própria idealidade a manterá proteiforme.
Politicamente, será sempre um hot button, como descreveu Gore Vidal, uma daquelas palavras que, brandidas, mobilizam “setores interessados da sociedade” quando políticos safados precisam demonstrar alguma preocupação com os males do mundo.
Mas é a pornografia um mal?
Não basta que os políticos sejam contra a pornografia para que ela seja necessariamente boa. Mesmo que ninguém aposte contra a incúria dos políticos. (Nem entro aqui na acusação de que a classe política e suas ações e consequências são eminentemente e inegavelmente pornográficas. Vou só anotar, porque há estratégia aqui.)
Sabemos, o leitor e eu, que defender a pornografia é bom sempre, porque, como os políticos não a definem, preferindo apontar que isto e mais aquilo são pornográficos, todo ataque à pornografia inevitavelmente será também um ataque à liberdade da população e à dignidade de não ser tratado como criança, contra a idéia de ser responsável por atos e escolhas.
(Aqui entra o apelo fascista de se encampar qualquer projeto de lei simplesmente porque se alega que é feito para proteger os inocentes. Há um voluntarismo por procuração que acaba sendo capturado. A pessoa quer fazer algo, seja o que for, e o político que propõe a nova lei, com novas consequências, algumas imprevistas até pelos políticos, recebe o endosso.)
Se os políticos podem atribuir significado à pornografia, em vez de tentar defini-la, essa classe parasitária, que no lugar de produzir, vive do butim chamado taxas, tributos e impostos, sem ao menos produzirem uma pizza satisfatória que seja, então qualquer um de nós também é capaz de atribuir definições e significados à pornografia.
Um significado possível e equivocado: a pornografia é grosseira e de mau gosto, em oposição ao erótico. A frase do Breton brincava justamente com essa noção.
Em O que é pornografia, Eliane Robert de Moraes lembrou do que o que vai subentendido na idéia de que a pornografia é grosseira, a implicação de que o sexo e o corpo humano são grosseiros.
O Michel Foucault que habita em nós apontaria que a falsa oposição entre erótico e pornográfico constituiria um discurso, que há uma didática e uma dominação em operação: existiria um saber do sexo e os guardiões desse saber nos guiariam de modo genial do pornográfico, inaceitável, ao aceitável erótico.
Agora uma definição à Edgard Morin: a pornografia é o condimento das vendas, existe para vender de sabonetes a novelas brasileiras. Pornografia seria sinônimo da exploração dos baixos apetites do público, um decote, a sugestão do corpo humano, a humilhação da mocinha na novela, a exploração sensacionalista da sordidez humana transformada em folhetim.
São atribuições de significado e definições possíveis, mas negativas, a primeira nega o humano e a segunda nega a existência própria da pornografia, ela não seria alimento, apenas tempero.
Se a pornografia é tempero, por que a principal objeção a ela, entre adeptos e críticos, recai sempre na insipidez? Gore Vidal criticava justamente o quão entediante era a pornografia que se produzia até a época dele, um mercado de livros insípidos, chatos.
Parte do que é criado, vendido e produzido como pornografia é sem graça porque as condições comerciais e políticas são adversas e determinam a marginalização da atividade. E não poucos pornógrafos e profissionais do ramo, ao se entrincheirarem, como prisioneiros de longas sentenças que aprendem a amar suas celas, preferem nunca sair de seus nichos, mesmo quando a sociedade quer reconhecê-los como heróis, artistas e até como seres humanos.
O discurso pronto do parágrafo, um pastiche de vários discursos, encavala clichês, sem por isso deixar de fazer sentido ou de ser verdadeiro. Também é possível trocar esses clichês pela apelação comercial: a pornografia só perde qualidade quando começa a ser perseguida e proibida, naquela mesma equação das substâncias ilícitas, a qualidade cai e o preço sobe. O VHS da locadora dos anos 80 é mais grosseiro que as fotografias do barão von Gloeden ao final do século XIX.
A cidade de São Paulo, apesar dos impostos, taxas e tributos, inventou há alguns anos uma lei que paralisa a fachada dos prédios e tira do dono dos imóveis a liberdade para desfigurar a cidade com anúncios, letreiros e demais barbeiragens visuais. A prefeitura de São Paulo assinou uma lei que retira a liberdade de você fazer o que quiser com a fachada de um prédio que é seu. Numa sociedade que se diz patrimonialista, o Estado protege o patrimônio privado dos próprios proprietários. Se a lei nos protege da agressão da publicidade, também nos agride em nossa vontade de pintar a fachada e torná-la mais bonita. São Paulo em pouco tempo se tornou parecida como a Polônia socialista retratada décadas atrás, mas por baixo da feiura dos anúncios publicitários descobriu-se uma feiura ainda mais triste. E talvez insípida. (Aqui entram os agulhões de vidro verde, os frutos da especulação imobiliária que resultam em aparmentos minúsculos e prédios de escritórios com fachadas de verde hospitalar para nos salvar da insipidez pelo mau gosto.)
Mas a interferência menor do Estado na economia e na sociedade não traria uma melhora muito significativa na qualidade da pornografia. (Não diretamente.) O argumento maior dessa constatação é Hollywood, que vende o que muitos moralistas há décadas enxergam como pornografia com baixos teores de sexualidade. Argumento menor, em contraposição, os tempos da Embrafilme, quando o Estado financiava um cinema desnudo, sem apitar no conteúdo da nudez. Há de se perguntar, e eu não pretendo julgar, que o que é vendido como entretenimento acaba sendo um tanto pervertido, já que ninguém trepa nos filmes de Guerras nas Estrelas.
Há todo um continente da pornografia que é pessoal. Para apreender esse continente, precisamos examinar a parte que não é comercial, ou tão comercial quanto uma loja de roupa, e que está menos sujeita ao controle do Estado, a pornografia na internet.
O fotógrafo e pornógrafo Eric Kroll disse que as coisas no mundo do erotismo acontecem por volta das quatro da manhã, pela internet. As fotos de Kroll estão tanto dentro do soft como do hardcore, categorias comerciais norte-americanas sobre o teor ofensivo da pornografia. A curvatura da Terra assegura que sempre será quatro da manhã em algum lugar com acesso à rede. Podemos encontrar pornografia alimentando a rede 24 horas por dia. Servidores de blogs com interfaces cada vez mais simples, como o Tumblr, oferecem a cada interesse erótico, que tantos descrevem como parafilias ou taras ou apenas preferências, centenas de blogs de imagens, tanto de material comercial, replicado de sites, como amador, produzido com uma câmera digital e acesso à internet. Além de textos. E arquivos de vídeo. Essa pornografia não é vendida em banca de jornal, não aparece na TV. Ela replica exponencialmente muito do que pode ser encontrado em bancas e canais de TV a cabo, mas oferece exponenciais de material exclusivo, muito diferente do que está à venda fora da rede. O volume é tão grande que mesmo se 99% do material fosse completamente insípido, o 1% restante poderia nos manter acordados por muito tempo.
(Como o leitor pode imaginar, este texto é de antes do expurgo que o Tumblr fez contra seus próprios usuários e que desde então se transformou numa plataforma zumbi, semelhante ao Blogger. Outras redes têm acomodado desde então os refugiados do Tumblr, como eles mesmos se descrevem.)
A tal melhoria na qualidade pela falta de perseguição do aparelho estatal poderia vier para o “pequeno produtor”, noção que aparece de modo anedótico no anedotário contra a gigantesta e bilionária indústria da pornografia.
(Aqui entra um gancho para a discussão evitada a não ser quando administradores de cartões de crédito ameaçam os serviços que estrangulam pequenos produtores. Toda vez que um OnlyFans ameaça seus fornecedores, como um Uber que persegue os próprios motoristas, a tia que complementa a renda da casa sente dor no fígado. Por trás dos arquivos está a nuvem, os bancos de dados, a eletricidade, o tráfego e outros tantos indicadores que custam dinheiro e consomem recursos. E tudo isso é pouco discutido.)
A pergunta central sobre a pornografia se aproxima, finalmente, a pornografia é boa ou má?
É ilusão pensar que uma resposta positiva sobre a pornografia irá frear o ímpeto de legislar contra a liberdade das pessoas. Dian Hanson, que foi editora de revistas softcore, onde publicou o trabalho de Kroll, e por anos editou os livros de temas sexuais para a Taschen, alguns são best-sellers, como The Big Book of Butt, que tem uma seção dedicada a Andressa Soares, a Mulher Melancia. Pela Taschen, Hanson e Kroll editaram The New Erotic Photography, semelhante aos conhecidos Architecture Now e Design Now, mas com fotógrafos e pessoas em graus variados de nudez. Por mais de três décadas publicando pornografia, Dian Hanson teria a opinião mais sensata para resolver o dilema: como algo que é tipo por insípido e grosseiro e puramente comercial pode fazer também fazer mal? Será que a pornografia chateia, ofende e ludibria seu público até a morte?
Dian Hanson seria a pessoa ideal para responder outra questão: as feministas, que como generalização, sempre burra, são uma versão não eleita de políticos, por bem mais de três décadas acusam a pornografia de ser contra as mulheres, portanto, contra a humanidade. A geração anterior, onde Dian Hanson cresceu, havia abraçado a pornografia. Pouco antes da pandemia surgiam novas vozes dentro e fora do campo feminista revisitando o moralismo anti-pornografia anterior com voz nas redes, e ao mesmo tempo revendo de modo crítico o discurso pró-pornografia da “segunda onda” feminista. Healing is nature, como se acredita nas redes, mas esse movimento pendular desperta piadinhas fálicas.
Último ponto antes de tirar da gaveta este texto, a acusação de pornografia.
O tom acusatório assim como o tom medicinal são de praxe no tratamento editorial da pornografia impressa. Então, políticos acusarem todo o resto de pornografia não é novidade. Krafft-Ebing criou um livro de parafilias que serve de aperitivo, tipo seleção de contos eróticos ou classificados da antiga Ele&Ela. The cruel and the meek fazia isso 1967. Já o interesse clínico, transfigurado em cultura do bem-estar, chegou ao Brasil nos 90, com depoimentos de casais disfarçados de contos de sacanagem, ou o contrário, por editoras respeitáveis.
Há acusadores que não são políticos, sejam políticos profissionais ou autoridades reconhecidas em suas comunidades. Gosto de acompanhar essas vozes, ainda que de longe. É pelo modo como tratam o assunto que querem denunciar e acusar que podemos ver o quanto entenderam o que é pornografia.
Alguns simplesmente invertem os sinais, e tratam de modo pornográfico a pornografia. Nisso agem como os políticos, acusadores profissionais. E criam um novo tipo de pornografia, o escândalo contra o (alegadamente) escandaloso.
O tipo pode ser novo, mas tanto o público como o truque são antigos. Um dos elementos eróticos da pornografia é justamente o obsceno. Falar do obsceno acaba excitando. A cupidez na condenação da pornografia pode ter o mesmo efeito da modéstia na hora de condenar, atrai olhares, desvia atenções, coloca pedaços de imagens na cabeça alheia.
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Talvez eu não seja a dona Bela desse assunto. Sou só um cara que estudou isso na faculdade e seguiu estudando. Então, não deixo de reparar como o assunto pula aqui e ali até de gente insuspeita, e nunca morre.



