Diversas notas
De junho e julho de 2025
“Algumas pessoas só são amargas por dentro e por fora.” — José Ramos Cioran
Enéas
Enéas, o maior dos pré-socráticos, nasceu e morreu na ilha de Kichute, distante o suficiente da ilha de Mykonos para o filósofo poder filosofar em paz e não tentar chegar lá nadando. De sua vasta obra e cabeleira, poucos fragmentos restaram.
“Protágoras é a contramedida de todas as coisas.” — Enéas de Kichute
Geômetras à moda
A noção de imaginação costuma ser aviltada pelos equívocos que tanta gente de inteligência criou com a noção de imagem.
Os antigos demoraram a captar que a imagem não se dobra à geometria, não o todo dela, só a parte geometrizável. E aí quase deixaram de ser antigos nessa demora.
Uns modernos tentaram aplicar a topologia à imagem, e alguns nem eram versados em álgebra, cálculo, geometria.
A imagem não se dobra nem a ela mesma. Por isso a semiótica falhou como ciência, apesar de passar bem. (Virou, vista de fora, uma análise do discurso geométrica mesclada a teorias da recepção).
A imagem também não é discreta (no sentido da física, de estanque, contável; uma pipoca, duas pipocas), mas a turma do pensamento quântico jura que é. E os céticos juram que essa turma nem pensa.
A imaginação ser uma donnée do ser humano e a imagem ser um datum levam muita gente a querer resolver o ser humano e a existência e a vida apelando para a informação (tentando trazer de volta álgebra, cálculo, geometria analítica).
Nos franceses tudo isso leva aos infinitivos, o saber, o pensar. E à subjetivação canhestra, o interdito, os afetos.
Ainda que a cultura pop seja uma tentação intelectual (e até fogo de Paglia), ela é um meio e uma solução que dissolve e coagula até a filosofia analítica, revelando sua estrutura e alcance.
Pergunte a um analítico o que ele (cadê as mulheres da analítica?) acha da música triste de todo final de episódio do seriado do Hulk.
Molho
Quando a pessoa diz que lambeu o prato, um primeiro pensamento meu é “ih, faltou comida, será?”
Quando me pego esfregando o dedo no prato para terminar o caldo que sobrou nele, me pergunto se é porque o molho não apurou o suficiente.
“A parte animal nunca se sacia, a mente aninal não descansa.” — Ovídio-dó
Fato
Terry Jones daria uma excelente Nora Barnacle.
O clássico esquecido de Tom Waits e Jim Henson:
Sesamestreettrombone.
Leis para você, mas não para mim
Supondo nossos parlamentares têm moral para propor, discutir e até aprovar projetos desse tipo, a ‘Lei anti-Oruam’ vale inclusive para eles? (E como fica jingle em campanha eleitoral, participação em show e prefeitura que contrata cantor?)
Validação
“Inteligência emocional” é só uma coleira mental para você não estragar o dia dos seus companheiros de baia quando for demitido. Ou toda vez que a gerência fizer caca.
“Inteligência emocional” é o “não é pessoal, são apenas negócios” pro andar de baixo.
(A prova de que é assim é tanto a expressão vir “de fora” como é algo que outra pessoa te ajuda a ver se você tem e como desenvolver a sua: uma performance para o outro.)
O clã samurai dos meus antepassados
Descubro que existiu o clã ao qual o clã dos antepassados do meu pai teria servido. De repente, não eram só “histórias que a sua tia contou uma vez”.
Prisão, escola, mosteiro
A prisão moderna é modelada a partir das (antigas) ordens monásticas: pouco sol, pouca liberdade, muita alucinação, várias tentações sensuais e sexuais, rica literatura até por gente que frequentou de fato uma ou outra; ou às vezes ambas, mosteiro e presídio.
Já a escola moderna é modelada a partir da prisão: tudo o que a prisão é, mas em versão kids, com mais sol e liberdade, menos tentações sensuais e sexuais, e com uma pegada mais didática, de socialização e reintegração social, ou seja, mantendo a alucinação. Já a literatura não é muito rica, sendo até meio pobre, inclusive por parte de quem fugiu da escola.
A coisa certa
Cresci num tempo em que se dava carona pra estranhos na estrada, era tanto normal como “a coisa certa a se fazer”.
E logo depois que tirei carta, virou “de lei” não parar nem pra polícia (vai que é bandido fardado ou vai que é bandido que vestiu farda).
Não, não vou escrever entendidos (ui) entenderão
Pelas críticas e comentários, O Brutalista parece uma versão para a arquitetura de O Livro de Cabeceira, do Peter Greenaway, para o mercado editorial japonês.
Pleno Estado
A escola deforma tanto a cabeça que a pessoa cresce pensando em sociedades de “pleno emprego” e nunca pensando em “pleno Estado”.
(Exemplo: sociedades que tentaram garantir pleno emprego trouxeram fome, miséria, corrupção, gente encarando muros protegidos por metralhadoras, pessoas se arriscando pela Tödistrasse, desesperados encarando tubarões.)
Três tipos de pizza
É dito que a pizza tem dois tipos ou duas formas, a que acabou de sair do forno e a pizza dormida, mas são três tipos, porque ela pode dormir dentro ou fora da geladeira.
Algumas são imbatíveis numa das três formas, geralmente saindo do forno, e outras são imbatíveis dormidas dentro ou fora da geladeira, a depender da qualidade e dos ingredientes da cobertura. (A mesma magia e princípio que a geladeira causa em cozidos, por exemplo.)
E há o alçapão de pizzas com excesso de queijo ou que a depender das características e qualidade do queijo precisam ser comidas assim que saem do forno. Demorou, esfriou um pouco a pizza, já era. Mas, dormidas, algumas voltam a ser aceitáveis.
As melhores que já comi eram boas nos quatro pontos: saídas do forno, esfriando à mesa, dormidas e dormidas na geladeira.
O discurso de que ‘humor ofensivo não vale’ esconde que a ofensa é estética
Tradicionalmente, gente feia só tem vez, fora da política, na comédia. Mas até isso querem tirar dos feios. Para piorar, na política os feios competem com os chatos.
Quando se reclama da “imposição” de “padrões de beleza” costuma ficar de fora o preconceito contra a turma do stand-up, que são gente feia como são feios o resto dos humoristas desde antes de Jararaca e Ratinho.
Volta e meia penso em combustão espontânea
E na persistência dela, quase uma abiogênese.
O Darwin que tanta gente entende é mais Lamarck que Darwin.
(Reparamos e pouco comentarmos, você e eu.)
David Dastmalchian seria a gente em Cannes, para quem gosta da fórmula X é Y em Z, mais fácil o Cannes em David Dastmalchian, o Dastmalchian na rua, no meio do redemoinho.
How It Is. Gostosa.
A lei
“Dura Lex Sed Lex Luthor.” — STF
À francesa
A cara que a saudosa Jacqueline Laurence faz quando alguém reclama que dois jovens não conseguem mais conversar sem enfiar algum termo em inglês na conversa, mas o reclamador não pensa em voltar ao tempo da cultura brasileira legítima, em que as novelas brasileiras, de todos os horários, tinham expressões em francês no meio dos diálogos.
A pinga do mendigo
Há uma discrepância ou hipocrisia entre a Lei Rouanet e aquele aviso em rodoviária e metrô para você não dar esmola.
Esmola é a Rouanet do mendigo, mas, marotamente, sem muita renúncia fiscal: o imposto da pinga que você deixou de tomar está contido no imposto que o mendigo deixa pro dono do boteco, que o dono do boteco deixou pro distribuidor de bebida etc.
Epicurismo para intelectuais, estoicismo para quem trabalha em escritório e, cada vez mais, neoplatonismo para acadêmicos
Fica parecendo ainda mais crença de casta se olhar pros vários cristianismos nas redes, ou seja, dos sem casta (do ateu graças a Deus aos discípulos de Aquino e de Agostinho, passando por nietzscheanos, marxoides, anarco isso e aquilo, existencialistas, humanistas e transumanistas, nenhum deles dispostos a se confirmarem a crenças de casta).
Não é preciso ser pobre nem solteira para saber
“À mulher honesta não basta ser honesta, deve parecer mulher de César.”
Indicação: um conto para o mundo
Quando Lucas volta da aula educação física, ele encontra um bilhete na porta da geladeira com a mensagem: Lucas, teu avô é o Anticristo. Na sequência, várias incidentes estranhos parecem confirmar certos versículos do Apocalipse. E também surgem várias
E-conto na plataforma da Amazon. Não é preciso ter Kindle: Lucas, teu avô é o Anticristo.




