Diagnóstico?
mixing memory and desire, stirring Lacan with spring rain.
Os memes e a sabedoria popular, ainda que de nicho, dizem que faltam doms e sobram subs. Traduzindo com certa grosseria e alguma imprecisão, justificadas pela clareza, haveria mais masoquistas que sádicos identificados neste mundão de meodeuso.
É possível desarmar aqui o apelo à moralidade, a sanha de olhar tudo como problema e atribuir todo problema a causas morais, ou seja, ao desarranjo comportamental, para quem toma “moras” como comportamento de dado grupo. Não falo aqui de perversos, mas de desajustados, segundo a visão moralista.
E para desarmar, recorro à noção proposta por Midori (“fetish diva Midori” para quem é mais velho que eu) de sadismo e masoquismo não como atração por violência, controle, dominação, humilhação e outros interesses, mas pensando no masoquista como aquele que busca ter uma grande experiência e no sádico como aquele que busca prover uma grande experiência. Os graus de sadomasoquismo, para quem inevitavelmente acaba aceitando a existência desse termo, seriam explicados pelo teor de intensidade e pela concentração de interesses da pessoa. No que e como ela quer experimentar e prover, e que tipo de sensação ela extrai desses dois pólos.
Indo por esse caminho, talvez eu seja tentado a concordar com outra injunção popular, a de que o sucesso da IA como uso e como assunto de debates se deve à massa de masoquistas. Porque a IA reage como um sistema de buscas que conversa com o usuário. Portanto, oferece experiência.
Não é preciso abrir exceção para o sádico que vai aos LLMs para debater até a satisfação de fazer a IA chorar ou confessar que seu sistema não é páreo ainda para o sádico. Mas essa pessoa é só sádica mesmo ou sadomasoquista? Porque ela se comporta como a pessoa que entrava nas salas de bate-papo do Uol, circa 1999-2001, atrás de discussão e da sensação de que todo mundo ali continua sendo imbecil, mesmo sem presença física. O flamer e o troll não precisavam estar no chat, no fórum de discussão, da mesma forma o testador de IAs tão crítico e cético.
Falta uma baliza para a visão popular, esta, ainda que óbvia: não é todo mundo que se vê numa régua sadomasoquista. Podemos ver gerentes e subordinados que não têm a menor noção de que estão vivendo relacionamentos sadomasoquistas não eróticos e muito menos sexuais, pessoas que provavelmente ameaçaram com processo se fossem apontadas como praticantes simbólicos do chicotinho de couro. Eppur si muove, como se diz QED em dialeto toscano.
A falta do diagnóstico ajuda a alimentar a visão moralista. Claro, os nomes de Sade, cujo sadismo literário é questionável em relação ao que se conceitua como sadismo desde então, e de Masoch, que na verdade era mais sadomasoquista que masoquista, pelo menos na literatura, não ajudam a esclarecer. Chupa, Krafft-Ebing e seus comparsas. Claro, Krafft-Ebing ilumina outro ponto, a proximidade do diagnóstico, um rótulo descritivo com possibilidades prescritivas, com a literatura, um rótulo intersubjetivo, em que Freud tenta aplicar mitos gregos à genitália de seus contemporâneos, como disse mais de uma vez Nabokov. Dessa tensão podem nascer os Burrhus, que na tentativa de se despir de toda literatura ficam só com o poder, com aquilo que opera resultados, um tipo de nudismo fascista que lembra a tortura numérica (estatística e a fileira de variações corsas de “se você torturar bem os números, eles confessam tudo o que você quiser”).
Talvez a lacanagem seja mais saudável, por pontos. A ideia meio House, mas inteira de Lacan, do paciente como safado, sedutor, não raro um gostoso. De fato, há algo de esquete de filme pornô o processo todo da medicina: do médico indo fantasiado de doutor até a casa do paciente até o paciente sendo internado no hospital enquanto se despe de sua dignidade em nome de um retorno à ela.
Romeu, dos Montéquios, não chegou a uma sentença. O nominalismo paira no ar como um flato vociferado por um ventríloquo. O impasse é resolvido por gente como Peter Gay e Harold Bloom: podemos até ser sadomasoquistas, ou seja, filhos, netos e bisnetos dos vitorianos, mas preferimos dizer que foi Shakespeare, um elizabetano, quem nos inventou por dentro.
Shakespeare é como o Tarot para quem usa dados de RPG. Você rola um D20, um D8, mas de cara o Tarot oferece 78 opções e várias combinatórias.
É quixotesco propor um binário-trinário do sadomasoquismo diante de Shakespeare, Hugo, Balzac, Tolstoi, que preferem a riqueza dantesca, um painel de tipos para a variedade de terapeutas e terapias. Hoje sai vídeo sobre o narcisista, amanhã veremos o hipocondríaco.
Mas é mais fácil rir do jogador de RPG que do terapeuta que une seu DSM a seus teóricos de preferência e aos termos da moda.
O riso, a reação mais libertadora cultivada pelos medievos, acabou emburguesante. Desconfia-se de quem ri e de quem faz rir. Todos são Quixote, mas para ser atendido você precisa entrar na fila e pegar uma senha numérica, um rótulo, Iago, Polônio, Ofélia, Banquo.
Então a ideia de escrever usando IA parece uma revolta conformista. Em vez de oferecer mais e mais tipos literários até a confusão mais entrópica do tal “sistema”, forma polida de descrever a burocracia dirigente, a pessoa recorre à destruição da própria criação de novos tipos, personagens e enredos.
Nota à parte: basta a pessoa se dizer contra o “sistema” e o nosso inconsciente tenta imaginar essa pessoa ficando puta e puxando briga contra um X+Y=15, X-2y=0
De novo?
Quero dançar até as vacas voltarem do pasto




