Democracia de Twitter
Algumas frases daquela rede que não existe mais. Com o tema da democracia. Separadas por data, para quem quiser pescar o contexto da época.

Sou da escola Mencken, mas minha irmã do meio define democracia como “trabalho em grupo na escola, aquela picaretagem que o professor demanda e faz a vida andar pra trás”. Ainda assim, ela é da escola Churchill.
2014
“Mas democracia é justamente aguentar a reação e a expressão do povo, mesmo que você seja tentado a chamar reação de ódio.” - GK Simpatia
2015
“Democracia moderna consiste em fornecer ao povo políticos com sobrenomes que eles consigam pronunciar.” - mister Simpatia
A Matemática dos 60-70 gerou o eleitor da social-democracia (PT-PSDB-PMDB). O Português dos anos 70-80 criou o militante que escrevx assxm.
A parte da democracia republicana de que mais gosto: você segue as leis, obedece às autoridades e elas quebram o seu país e você chora.
Uma democracia onde votação é golpe ou um país tão democrático que até golpe é votado.
Nunca existiu democracia sem escravos (e talvez os robôs resolvam isso), mas haverá república sem pederastia?
Aprendemos na escola que decidir no voto e não na porrada costuma dar bosta. Daí afirmam que voto é democracia e confundem o aluno pra vida.
“Ah, o ser humano mata e destrói”, como se eu tivesse algum poder, como se não houvesse democracia representativa. VTNC, filha da puta.
2016
“Democracia é não precisar ter diploma pra poder dizer bobagem em público. A internet é democracia automatizada.” - xeque Al Simpatia
Na democracia tortura-se o sonho. Sei.
2017
Em português, democracia rima com delegacia não importa quem for eleito. Em inglês soa mais próximo do resultado: The-Mock-cracy.
A TV mostra a cara dos juízes do STF e o brasileiro não sei quebrando tudo. A democracia está consolidada.
Menos estranho, intelectuais (garneirando o “Mas esta ainda não é a minha democracia”) querem derrubar o Trump.
Não basta xingá-lo de volta.
Ele é o presidente que se torna figura concreta em vez de um anjo ou demônio. É o louco da pracinha sempre lembrado na mesa do bar.
Aquelas teses, umas dos 80 e outras dos 90, de que os militares não devolveram a democracia ao povo, mas a entregaram nas mãos dos partidos.
Aliás, a história do fim do bipartidarismo biônico e volta dos partidos ao fim do regime (até a “revoada dos tucanos”) é muito interessante.
Um dia será provado, não mais no nosso lombo, que a reabertura foi um “case” de social-democracia e sua economia de vouchers e seus limites.
2018
O especialista que lamenta a “falta de líderes” repete o intelectual que acha a democracia “importante demais para ficar na mão do povo”.
É mais fácil expressar o primeiro pensamento no jornal. E se ele aparece mais é porque os intelectuais brasileiros já não sabem escrever.
Aprendemos lá com Platão que o que está em curso, esta balbúrdia com cara de guerra civil (em que os alvos são os eleitores, raramente os candidatos) é o funcionamento normal da democracia.
2019
Ou mudam o nome da democracia representativa ou param de reclamar de quem “anula” o voto.
2020
A prosódia do Itamar era quase mais aceitável que a do Sarney, que ainda permitia a caricatura fácil.
Veio a democracia, não veio a fonoaudiologia.
2021
Piu-piu sem Frajola,
democracia sem escravos,
Coca-Cola sem cocaína,
cigarrinho de chocolate ao leite Pan sem cigarro na embalagem,
assim é você sem História
Paradoxalmente (ou espertamente), quando os entendidos tratam de política e sistemas políticos o primeiro passo é fazer logo um recorte histórico fingindo que se busca um recorte semântico, que é um modo suave de esconder as rupturas históricas.
Essa aprendi com o Milton Santos.
Então é sempre um “a democracia vem da Grécia”, blá-blá-blá. Mas nunca é “o presidente moderno vem do minstrelsy americano do século XIX, do vaudeville, do circo, do nickelodeon”. É muita safadeza e picaretagem.
Porque podemos enfileirar vinte presidentes modernos, imaginá-los de toga e cobertos de louros. Continuarão parecendo mais imitadores dos irmãos Marx que atenienses livres ou patrícios romanos.
2022
Democracia na prática: apesar das barbaridades atribuídas ao chefe do STF, a sociedade não tocou num fio de cabelo dele.
Se é democracia, por que só tenho direito a um voto?


