Como escrever uma resenha (texto de 2017)
Todo ano ou quando algum aluno ou conhecido me pergunta, refaço a receita. Perdoem o tom professoral. Juro que em sala de aula sou menos besta.
O que é resenha?
Podemos ficar com esta definição, que serve para a maioria: a resenha é um texto estruturado objetivamente a respeito de um objeto. (O objeto e o objetivamente demarcam a fronteira com o ensaio, formato que pode adentrar o subjetivo e vários assuntos outros que um objeto).
Esse objeto pode ser um evento, uma pessoa, uma obra, como filme, livro, videogame, peça de teatro.
O que importa dessa definição é o “estruturado objetivamente”. Isso quer dizer que até o fim da leitura o público precisa ter uma ideia concreta do objeto que você resenhou.
(Definições mais acadêmicas, mais comerciais ou mais praticadas pela imprensa farão mais sentido no particular, aqui vamos pro geral-geralzão.)
Sugestão de estrutura
E para tornar essa estrutura mais objetiva, vou dividir a resenha em cinco partes que podemos colocar numa ordem canônica (do tipo começo, meio e fim) para melhor visualização:
- introdução (descrição do objeto),
- resumo (no caso de obra de arte),
- aspectos objetivos (as relações entre o objeto e o mundo),
- aspectos subjetivos (as relações que o objeto desperta no resenhista), e
- conclusão (caso seja necessário um arremate).
Quem domina a técnica da resenha pode suprimir e estender essas partes, pode alterar a ordem delas ou mesclar essas partes umas nas outras.
Exemplo de resenha de livro numa ordem canônica:
Introdução: dados a respeito do título, autor, tradutor, editora, número de páginas, nome do capista etc. Tudo isso pode aparecer num bloco à parte, num parágrafo de abertura que apresente o livro e, se necessário, incluir o propósito do autor de resenhar o livro que apresenta.
Resumo: “o livro conta a história de um pescador já de certa idade que foi para o mar sonhando com uma grande pesca e de repente percebe que fisgou algo grande, talvez o maior peixe da vida dele, e precisa de todas as forças para manter o peixe fisgado e conseguir levá-lo para casa sem o peixe escapar, a linha partir, o barco virar ou o pescador se esgotar e deixar a pesca ir embora”.
Aspectos objetivos: a repercussão do livro no país de origem, no mundo, no Brasil. Filmes e peças de teatro que adaptaram a história do livro. Fortuna crítica do autor e da obra. Todas as informações relevantes que o resenhista encontra fora da obra e que ele acha relevante para a melhor compreensão e avaliação da obra. Em resumo, dar o contexto para o público e mostrar as articulações entre a obra e o autor e o mundo.
Aspectos subjetivos: a experiência do resenhista como público, a opinião do resenhista, aquilo que ele gostaria que o leitor enxergasse, a própria avaliação da leitura ou da obra por parte do resenhista, tudo o que for subjetivo, mesmo que encontre eco em críticas e elogios já feitos, consagrados e conhecidos. Ainda que os objetivos variem, o objetivo maior da resenha é transmitir é a experiência pessoal do resenhista diante do objeto.
Conclusão: pode ser a recomendação de mais leituras ou de que a obra não vale muito a pena ou até um “três estrelas”, “nota cinco” ou uma peroração das condições atuais do mercado editorial: “hoje publicam qualquer porcaria, ainda mais uma que lembra ou copia um clássico como O velho e o mar”. Nem sempre um arremate é necessário nem precisa ser a opinião final ou uma conclusão de tese ou de trabalho escolar.
“Por que não consigo escrever a resenha?”
Sem uma ideia clara de estrutura, tendemos a acessar as informações objetivas e subjetivas do objeto a ser resenhado e elas podem ficar dançando na nossa cabeça.
Às vezes, despejamos no papel tudo o que lembramos dessas informações e o resultado é uma massa disforme.
Acontece também de seguirmos uma estrutura de começo, meio e fim e chegamos a um resultado que não nos agrada, que não é o que queríamos dizer, que não reconhecemos, que até parece frio ou burocrático.
Na maioria das vezes o descompasso entre o que temos para dizer e o que conseguimos dizer acontece porque temos dentro de nós a estrutura da resenha e às vezes temos até uma ordem canônica para as informações que sabemos que queremos passar.
Então, é como se o texto já estivesse pronto na cabeça.
Se todas as informações já estão lá, sambando à nossa volta, é como se não precisássemos mais escrever o texto. E aí o texto não sai ou sai todo embaralhado.
É comum a pessoa decidir escrever e não gostar do texto ou mesmo perceber que algo está faltando.
A sugestão e uma forma de resolver essa situação é tomar esse primeiro texto como a base, o rascunho inicial da resenha.
Se você não se sentiu satisfeito com o texto inicial, se não gostou do resultado, melhor tomar esse texto como o primeiro rascunho.
Como escrever uma resenha: 3 versões
No livro On writing (publicado no Brasil como Sobre a escrita), Stephen King oferece o que funciona com ele para a própria ficção: três versões. Cada versão é uma aproximação do escritor do texto final.
A primeira versão é o escritor chegando à história.
A segunda versão é o escritor contando essa história em suas próprias palavras.
E entre a segunda e a terceira versão, King incorporaria as observações de seus leitores de estimação (ou leitores beta, como a esposa, algum amigo e às vezes até os editores). E essa terceira versão, em que o autor faz a revisão e o polimento “final”, é a que vai para a editora como original acabado.
Uma resenha não é uma obra da ficção, ou nem sempre é, e passa longe de uma novela de 500 páginas. Mas é útil considerar a versão inicial como um rascunho.
E o conselho do Stephen King faz sentido. Escrever bem costuma ser conseguir se colocar no lugar do leitor. E é o que King diz que faz da primeira para a segunda versão.
Proponho estas três etapas para a produção de uma resenha:
1. Reunir as informações (1a versão ou rascunho inicial)
Reúna na sua mente todas as informações que você tem da obra, da sua percepção como público às informações objetivas do autor, da obra e da recepção da obra pelo público.
Até conseguir reunir essas informações e escrever de modo ordenado, sugiro colocar tudo no papel. Pode escrever o que vier à mente e o que conseguir lembrar, sem se preocupar com a forma do texto.
Depois, deixe esse rascunho descansar. Só volte a ele dias depois. Se não houver muito tempo, tenha pelo menos uma noite de sono antes de voltar ao texto. Se não tiver nem isso, escreva, salve, vá ao banheiro, relaxe, vá fazer outra coisa, tomar água ou um café, e volte ao texto depois de pelo menos uma hora.
Ao voltar, pesquise o que precisa e complemente as informações: conferir título, autor, verificar número de páginas, diretor da montagem, outras composições etc.
2. Estruturar as informações (2a versão ou resenha tradicional)
Agora escreva a resenha numa ordem próxima da canônica. Introdução, resumo ou descrição da obra, aspectos objetivos, aspectos subjetivos e um arremate ao texto.
Essa é a resenha objetiva. Aqui as informações estarão mais bem ordenadas.
Assim como a etapa anterior pode ser feita de cabeça, aqui também se pode preencher um checklist ou listar os itens mais óbvios.
Se possível, deixe essa versão descansar por alguns dias ou pelo menos com uma noite de sono. Se não for possível, invente alguma distração para se afastar por uma hora do texto.
A prática leva a pessoa a ter as etapas 1 e 2 na cabeça, como exercício posterior à apreciação da obra. E às vezes esse exercício é quase imediato: a pessoa olhou o quadro na parede da galeria e já tem uma ideia bem estruturara do que dizer daquela obra.
Há quem faça poucas notas. Há quem registre observações durante o filme que vai resenhar. E há quem só escreva na hora de digitar a resenha, porque espera que a própria memória selecione o que vale a pena ser lembrado. Todos esses procedimentos são técnicas, nem sempre conscientes, mas que podemos usar.
Uma resenha estruturada serve como fichamento e resumo pessoal. E é uma estrutura que pode ser adaptada para o trabalho e para a vida acadêmica.
3. Ficar com o essencial (Formatar o texto para o toque pessoal ou a necessidade do meio, e jogar fora as informações)
Quando há tempo suficiente, a terceira versão é a que você faz quando tirou da frente a necessidade de reunir as informações e quando se livrou da vontade de informar o leitor.
Ou quando as necessidades de tamanho e formato obrigam você a ser essencial e sacrificar o resto.
A terceira versão da resenha serve para adaptar a resenha ao interesse do autor e às necessidades de tema, formato e espaço do meio onde a resenha será publicada.
Se o texto vai para a seção de mini-resenhas como a de revistas e sites como a Rolling Stone, o texto pode ser muito mais objetivo ou muito mais pessoal.
Todas as informações que o público encontra com facilidade na internet podem ser limadas ou resumidas ao essencial. Basta manter as informações que identifiquem o objeto resenhado. E às vezes basta o resenhista dar o caminho para o público pesquisar por si. (Também se pode dar um passo além e incluir em vez de tirar informações: mesmo numa resenha que não discuta a tradução, vale a pena incluir o nome do tradutor, um crédito e um cuidado que ainda não é praxe, e que portanto torna a nossa resenha mais valiosa. Ela pode não ter as informações normalmente encontráveis na rede e na imprensa, mas tem algo que o leitor não encontra facilmente lá.)
Esta versão do texto pode tomar uma forma mais ensaística e livre, porque o resenhista está imerso nas informações que retomou e estruturou.
E o resultado pode ser incorporado à versão anterior, atualizando os aspectos objetivos de modo mais concatenado, oferecendo insights e reflexões na seção dos aspectos subjetivos e criando uma discussão ou argumento para uma reflexão conclusiva.
O valor da versão estruturada e da versão final
Minha prática sugere que quanto mais tempo se passar entre a resenha estruturada e esta última versão, mais minha mente trabalhou as informações, mais a memória decantou o que chama a atenção, e mais conexões interessantes estarão à minha disposição.
Em resumo, a primeira versão seleciona as informações que podem estar dispersas na minha memória, a segunda versão estrutura as informações de um modo natural, canônico, e essa estrutura me ajuda na terceira versão a produzir um texto conciso, informativo e que atende o meio e o público esperado e também o resenhista.
A vantagem de seguir as etapas é que se o prazo se esgotar e o resenhista não tiver nenhum insight ou resenha fantástica, ele pode entregar a segunda versão, que é sólida e cumpre o que se espera de uma resenha, ou mesmo a primeira, para os “fatos” (título, data, tradutor, papel, tipo de encadernação, onde foi escrito e publicado) e impressões iniciais da obra resenhada.
Um pulo do gato, ainda que óbvio, para resenhas de livros (e poemas e até canções):
Por curto que seja o espaço da resenha, vale a pena citar trechos do livro resenhado (no caso de resenha de livro) para o leitor ter uma ideia da obra e do que você está tentando mostrar. Oferecer ao leitor um vislumbre do texto valida as observações objetivas e dá peso à relação do resenhista com a obra, a parte subjetiva.
[Aqui entram exemplos de resenha, que ficam para um próximo post, porque este ficou grande.]