Abertura descartada
(Tende a parecer vergonhoso oferecer, ainda mais de graça, conselhos e comentários de escrita, leitura, livros. Vale o mesmo quando a gente mostra as próprias falhas?)
Gosto de saber como alguém lê, mas não sei se consigo ilustrar como se dá essa leitura, muito menos como o autor, pelo menos este aqui, lê “tecnicamente” atrás do que funciona e do que não funciona. Aspas pela redundância da última frase, porque técnica aqui significa a busca pela produção de resultado, e não alguma ideia mais elaborada ou, sei lá, técnica. Queria escrever algo chique, a ideia de que estilo é um conjunto de recursos, e do estilo como solução de problemas, e não marca nem voz autoral. É, feio. Então cabe uma frase feita para exibicionismo: se não pudermos servir de exemplo, podemos servir de lição.
Descartei a abertura abaixo, que usaria no Daily Strip, título provisório do livro que coloquei no site da Amazon (anos atrás, e ficou por isso mesmo).
A ideia de um narrador indo e voltando no tempo enquanto acompanha um personagem implica a ideia de um incidente urgente, algo que justifique a narração e justifique o leitor não se perguntar antes do tempo Pra quê? e Por quê? A solidez da cena é aparente, falsa. Tudo ali é descartável.
Gosto de como o narrador esconde a principal característica da personagem Joana, ela é louca de pedra. Ainda, parece trecho de livros que outros escrevem, que eu gosto de ler, mas já existem, então esta abertura não faz falta.
Melhor seria: “Foram buscar Joana no pronto-socorro do hospital. Conversava com o ortopedista e se apoiava na enfermeira. Para alívio da família, ainda segurava o saco de papel com os pães de queijo”.
Mas aí fica tão seco que preferi cortar.
[abertura descartada]
Na cidade grande, que era imensa, os mendigos não vinha do longe mítico nem eram tão próximos que se pudesse identificar a família e o caso familiar.
Ficavam a uma distância dos mais velhos e dos universitários, que insistiam em se aproximar. Joana não se incomodava, ainda gostava da companhia dos universitários, mas descobriu que havia pouco a aprender e pouco a saber dos mendigos da cidade grande.
O ar da cidade era ruim, algo pobre subia do rio todas as noites quando ela chegou. Depois, era como se sumisse, ela se acostumava ao ar da cidade. Mulheres se abraçavam e se beijavam e eram as duas bonitas. Era menos assim no interior. Mais intenso e menos bonito, menos natural. Um dia beijaria mulheres bonitas além das irmãs e da prima. Não, era algo podre, não pobre que subia do rio. Joana não conseguiu não rir.
A rua era quase plana. A rua fazia uma curva que revelava os prédios compridos. Havia Joana e do outro lado, na calçada oposta, a mulher com os cães.
A mulher passeava com dois cães imensos e um muito pequeno, todos na coleira. Vestia camisa jeans, era um casaco. A bermuda curta como Joana usava. Mas a mulher calçava chinelos. Era assim na cidade grande. Joana ia descalça à padaria, a qualquer parte da cidade, primeiro da casa dos pais e depois da casa dos tios. Mas não sairia na rua com os chinelos daquela mulher, nem mesmo na cidade grande. Não era possível correr com eles. Nem para resgatar os cães nem para protegê-los.
Gostava da luz da cidade. A luz mudava as ruas. Prédios e casas pareciam acolhedores e depois ameaçadores, abandonados, prontos para recebê-la. Casas de sonhos. Apartamentos onde se vivia, longe dela, numa privacidade que invejava. Mas quase nunca havia uma noite escura, havia um brilho rosado acima da cidade.
Joana parou na venda. A mulher e os cães seguiam na outra direção. Quando saiu da venda a luz da cidade havia mudado. A noite caíra.
A luz amarelada de uma sala de jantar. Joana bebeu vinho nas ruas, acompanhando as irmãs, via apartamentos e adivinhava as salas de jantar. Passavam a garrafa, tinham cuidado com as ruas, os estranhos. Depois ela conheceu prédios e apartamentos. E festas com universitários. E depois bebia sozinha e com a mãe e o padrasto. Não se esquecia dos mendigos.
A cidade era imensa e diferente. Era o sobrenome numa cidade de praia que indicava o quanto alguém aguentava de abuso dos bêbados, o quanto podia receber e tratar a todos bem. E o quanto podia ser recebido em qualquer lugar, por mais falido que estivesse, ele e a família dele. Era assim no interior. Joana entendia. Mas ali era diferente. A capital era diferente do interior e o interior se parecia com a cidade de praia. Esta cidade também era dinástica, mas as dinastias precisavam de território, elas se formavam nas escolas. Onde você havia estudado importava mais. Se estudou em tal colégio, você cresceria e se relacionaria com este e aquele grupo. Em outro colégio, outros grupos e relações quando adulto.
Foi assim que entendeu o padrasto. E aceitou o casamento da mãe. Eduardo era alguém da cidade. Anna não era. As filhas não eram nem seriam. O filho de Marcelo era da cidade. E seria alguém.
Joana entendeu que um dia precisaria destruir o meio-irmão. Porque ela nunca seria ninguém naquela cidade, por mais que reconhecessem o trabalho dela. E um dia reconheceriam. Mas o prazer de destruir Marcelo cabia a Mara, que era a irmã mais velha. Isso Joana também entendia. Queria não fazer parte das ações da mais velha.
Era menos pão de queijo que o necessário. Não ia voltar à venda. Foi com essa decisão, sem pensar em mendigos, cães ou cozinhas iluminadas que encontrou o automóvel que freava sobre ela.
Nenhum pão de queijo rolou do saco, ainda bem. O motorista e a passageira estavam mais assustados que ela. Era mais fácil ameaçar com processos quem já está assustado.
Os quatro primeiros parágrafos são inúteis. Apresentam um cenário, mas seria preciso dar algo para o leitor que justificasse a montagem do cenário.
Então, o quinto parágrafo (A mulher passeava com dois cães imensos…) deveria abrir o capítulo. Mas ele é muito descritivo.
Fosse manter essa abertura, começaria com o parágrafo sete: Joana parou na venda. A mulher e os cães seguiam na outra direção. Quando saiu da venda a luz da cidade havia mudado. A noite caíra.
Porque temos aí algo para o leitor: a mulher e os cães seguiam na outra direção. Que mulher? Que cães? Qual a relação deles com a personagem da Joana?
E resumiria os três parágrafos seguintes, que trazem informações que no momento não fazem sentido para o leitor, a alguma frase a respeito de beber vinho com as irmãs, e pularia para o parágrafo seguinte: Joana entendeu que um dia precisaria destruir o meio-irmão.
O resultado ficaria próximo disto:
Joana parou na venda. A mulher e os cães seguiam na outra direção. Quando saiu da venda a luz da cidade havia mudado. A noite caíra.
A noite era o momento de beber vinho nas ruas, com as irmãs. Passavam a garrafa e viam os apartamentos e adivinhavam as salas de jantar. Depois ela conheceu prédios e apartamentos.
Ainda na fila, Joana entendeu que um dia precisaria destruir o meio-irmão. Ela nunca seria ninguém naquela cidade, por mais que reconhecessem o trabalho dela. Um dia reconheceriam. Mas o prazer de destruir Marcelo cabia a Mara, que era a irmã mais velha. Isso Joana também entendia. Queria não fazer parte das ações da mais velha.
Era menos pão de queijo que o necessário. Nem sinal da mulher bonita com os cachorros nem dos mendigos que iam começar a atravessar o bairro de volta ao viaduto. Não ia voltar à venda.
Foi com essa decisão, sem pensar em mendigos, cães ou cozinhas iluminadas que encontrou o automóvel que freava sobre ela. Nenhum pão de queijo rolou do saco, ainda bem. O motorista e a passageira estavam mais assustados que ela. Era mais fácil ameaçar com processos quem já está assustado.
Ainda assim, reparo em como o texto se manteve estático.
Em grande parte por causa dos verbos: parou, seguiam, havia mudado, caíra, era, conheceu, entendeu, precisaria. Etc.
E mesmo quando Joana é quase atropelada, a reação é mais descrita que narrada: o motorista e passageira estavam mais assustados que ela. Era mais fácil […].
As duas “variações de ritmo de frase” ficam evidentes: o “Ainda na fila, Joana” e o “Foi com essa decisão, sem pensar nos”. Um narrador melhor e um autor mais competente teriam evitado essa observação “de fora”, desajeitada, por uma observação mais interna, mais subjetiva e colada na própria Joana. O que justifica essa “câmera” que se afasta e enfia pro leitor um “Ainda na fila, Joana” e o “Foi com essa decisão, sem pensar nos”?
Não sei. Melhor descartar a abertura e não insistir numa nova redação.
No entanto, qual a utilidade, se alguma, de ter escrito essa abertura?
Por que o escritor não interrompeu de imediato o que estava escrevendo?
Acho que a resposta está no insight de Stephen King, naquele livro On writing, cujas partes boas e úteis poderiam ser resumidas em alguns parágrafos (para quem não gosta da prosa do King ou acha ele por demais prolixo). King conta que o método de trabalho dele consiste em fazer três versões da história que está escrevendo. A primeira seria a versão em que ele conta a história para si mesmo. A segunda seria ele contando a história para o leitor, e aí ele cortaria e editaria o material para ficar num formato que faça sentido para o leitor. E a terceira versão incorpora os conselhos e observações da esposa, sei, até acredito, e é onde ele faz a revisão final.
A história estaria ali, na primeira versão, do modo como você chegou a ela e a escreveu. Mas, não necessariamente, é o modo que funciona para o leitor. Na hora de fazer a minha segunda versão, o momento de se colocar de todo no lado do leitor, entendi que a abertura não funcionava.
Hoje o Daily Strip continua com esse título esdrúxulo, segue sendo só um e-book na plataforma da Amazon, mas agora abre com esta frase:
Quando Gil desistiu de tentar ficar de pé, conseguiu se equilibrar e percebeu que não precisava voltar ao banco de pedra.
Ah, sim, propaganda. Vamos lá:





Marcelo! Creio que escrever um romance, requer antes de tudo, talento, vocação, inspiração. Quando "baixa o santo", o autor esta se lixando para gramática, regras etc... Ele escreve de qualquer forma. Ele não pode é perder a inspiração. Estes detalhes de escrita, ficam por conta do revisor. Se o autor ficar pensando, estudando a correta conjugação do verbo, o "santo" enche o saco e vai embora deixando o autor com a gramatica na mão.